segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

ROBERTA CAMPOS

ROBERTA CAMPOS

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Roberta Campos – Varrendo a Lua Música rima com mágica? Acho que não! Não sei direito quais são os critérios da língua portuguesa para falar o que rima e o que não rima, mal me lembro dos dodecassílabos e alexandrinos das aulas de literatura nem das análises sintáticas das de gramática, mas tenho quase certeza que, apesar de parecidas, essas duas palavras não rimam.

Mas é que, já misturando as matérias, graças aos céus música não é ciência exata. E é aí que surge uma figura pra subverter essa ordem. Uma certa ROBERTA CAMPOS, e sua incomum habilidade de insistir em fazer música rimar com mágica.

Instinto puro, ela escreve pra que sua vida fique mais leve, como se fosse aquele Michelangelo que aparava arestas dos blocos de mármore de carrara para tirar de lá os escravos que via. Um tirava cativos de dentro das pedras, outra arranca leveza do papel, palavra por palavra, nota por nota. Formão na mão de um, violão na de outra. Cada um fazendo mágica à sua maneira. Mas mágica!

A mágica da Roberta!

Mineirinha de Caetanópolis, comeu pelas beiradas fiel à sua raiz, escrevendo dia e noite, compondo compulsivamente, colocando pra fora ideias e melodias. De um mar de influências, Bon Iver, Joni Mitchel, Rufus Wainwright, Beirut, Damien Rice, Milton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges, Legião Urbana, Marisa Monte, Zélia Duncan, Beatles, fez surgir um estilo só seu. Mais de 200 (!!!) composições, sempre com uma coisa em comum: a simplicidade que só tem quem é paixão pura, sem enquadramentos fáceis, nem de mpbs, nem de folks, nem de clubes. Não queira restringir dentro de um título a música que essa menina tira de sua cartola (no caso dela, um fiel barrete). Chame de música só. Mas música!

Ora direis Varrer a Lua!

Destas tantas composições de ROBERTA, agora finalmente descoberta entre as esquinas e prédios da Paulista, muito se escutou, muito se trabalhou e do estúdio (Tambor, no Rio, durante o verão de 2010) saiu "Varrendo A Lua", quarenta minutos de pura sensibilidade musical, dez canções que ela mesma apresenta assim: "Cada música deste disco foi escolhida porque uma completa a outra, uma mensagem dividida em histórias, em momentos, mas um único amor". Nove composições próprias, incansavelmente garimpadas. Ao lado delas, uma pedra preciosa das minas, "Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor", de Lô Borges e Marcio Borges, que MILTON NASCIMENTO gravou no álbum Pietá, de 2003, e que facilmente poderia ser uma composição da ROBERTA, de tanto encaixe que há. De resto é tudo ela. Inspiração pura. Nas suas palavras: "Tudo me inspira, as coisas, as pessoas, os sentimentos, do mais simples ao mais complicado, do meu amor a um simples sorriso, o céu estrelado e mesmo a falta de estrelas". É, ela ouve as estrelas, ora!

O mundo inteiro, de janeiro a janeiro!

Ouvir ROBERTA CAMPOS é uma experiência multi-sensorial. Coloque pra tocar e deixe rolar. Sem a menor cerimônia, um quarteto de cordas invade sua sala; com o pé na porta, os teclados de Dadi e a guitarra havaiana de Christiaan Oyens preparam a chegada de uma voz que, timidez jogada no lixo, avisa "vou varrer a lua, varrendo sua solidão". E varre até não parar mais. "Mundo Inteiro" entra na cadência de um folk-reggae mineiro declarando um amor enorme de grande, esperando o tempo que for. "A Felicidade" escancara uma simplicidade apaixonante, verdadeira raiz da magia deste álbum. "Acabou" é um final sem fim, "Sinal de Fumaça" mostra uma produção atualizada com as idéias de Bon Iver e Florence And The Machine. Em "Aqui, Ali", a poesia ganha contornos geniais: "Vou chorar. Às vezes vou sorrir de amor. Ser assim, trazer o lado bom das cores. Vou somar os restos que você deixou. Melhorar, reparando minhas dores". E no meio das confissões de amor que ela faz em "De Janeiro A Janeiro", surge a inconfundível voz de NANDO REIS: "Olhe bem no fundo dos meus olhos e sinta a emoção que nascerá quando você me olhar. Te amarei de janeiro a janeiro até o mundo acabar". Na simplicidade de ROBERTA, "de repente o cara que cantava Marvin estava ali na minha frente, cantando a minha música". Ao que ele responde, olhos cheios d'água, para o produtor do álbum Rafael Ramos ao ouvir a gravação que acabara de fazer no estúdio: "Chegaram as águas de março".

E ROBERTA CAMPOS é exatamente assim, paixão simples, de quem assina seu nome com as formas de um violão. De quem canta o amor varrendo a lua, andando na rua. De quem aos quatro anos de idade descobriu e decidiu que sua vida seria isso, cantar, compor, emocionar. De quem é assim como você e eu, aqui e ali, tênis all-star surrado, calça jeans de outros carnavais, aquela camiseta hering que cabe como uma luva. Nos braços, o violão. Na cabeça, as notas e as rimas.

Porque é assim, simplesmente, que ela rima música com mágica! Rima sim!

Alexandre Ktenas/Abril 2010

Tom Jazz (Projeto Sons da Nova)

Um comentário:

Wellington Bernardino disse...

Roberta Campos,

Felizmente as redes sociais permitem que bons artistas brilhem quais estrelas que suscitam no universo, conquanto nas mídias convencionais, permanece a cultura de cultuar artistas bons, razoáveis ou inclassificáveis, todavia comuns por serem os únicos divulgados ou reproduzidos, bem como seus repertórios substancialmente cansativos, graças às engrenagens da cultura de massa ou da elitização clássica que insistem em prender brilhos idos.

Diante ao belo constantemente nos faltam palavras capazes de expressar emoções, pelo menos no primeiro instante, com o tempo vamos interiorizando o sublime.

Peço desculpas pelas ausências poéticas diante de seu luzir, espero um dia ter a chance de pelo menos ousar em palavras poéticas dizer algo sobre sua docilidade e encantamento.

Abraços fraternos,
Mineirim das Gerais
28/02/2011